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domingo, 27 de fevereiro de 2011

O Cenário Econômico e a Gestão Empresarial


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O Cenário Econômico e a Gestão Empresarial

Por Jose Carlos Panegalli
25/02/2010.

As empresas não podem permitir-se ignorar os acontecimentos do mundo exterior.

A interdependência das empresas entre si e destas com o Estado e com a economia internacional, é patente. A sobrevivência empresarial depende, em grande parte, do conhecimento dos fatos atuais e da previsão dos acontecimentos futuros, tanto no plano nacional quanto no internacional.

Esta é uma condição de trabalho inerente ao próprio estágio de desenvolvimento pelo qual está passando o Brasil. Em princípio, é uma fase de constantes ajustes e reajustes, pois qualquer trabalho atual constitui apenas um teste para o futuro, cujo alvo é a meta do desenvolvimento global. O cenário econômico e financeiro nacional repercute sempre, direta ou indiretamente, sobre as atividades da empresa.

O administrador empresarial, para gerir bem os negócios e agir nas oportunidades de mercado, deve estar atendo às questões como: expansão econômica, efeitos da inflação, comportamento dos preços, renda per capita, política salarial e aumento de renda, custo de vida, especialização da mão-de-obra e progresso tecnológico. É fundamental ter também o domínio e conhecimento sobre o fluxo de recursos, tais como: fontes externas, empréstimos a juros, fontes internas, exportações e importações, balança comercial, déficits governamentais e aumentos de impostos, cujos fatores provocam mutações na economia.

Importante medir a temperatura econômica, acompanhando os principais índices econômicos, e para compreendermos a importância da economia na gestão das empresas, temos que entender o que seja: micro-economia - o estudo do comportamento dos mercados específicos e da alocação de recursos entre eles, e macroeconomia - o estudo dos eventos no âmbito de toda a economia, como inflação e deflação, prosperidade e recessão.

Os aspectos macroeconômicos:

Se a macroeconomia estuda a estrutura institucional do sistema financeiro e as políticas econômicas de que o governo federal dispõe para controlar satisfatoriamente o nível de atividade econômica dentro da Economia do país, temos também claro que a teoria e a política macroeconômica não conhecem limites geográficos, pois visam estabelecer uma estrutura internacional segundo a qual os recursos fluam livremente entre as instituições e nações, a atividade econômica seja estabilizada e o desemprego possa ser controlado.

Uma vez que a empresa deve operar no âmbito macroeconômico, é importante que o administrador esteja ciente de sua estrutura institucional, estando alerta para as conseqüências de diferentes níveis de atividade econômica e mudanças na política econômica que afetem seu próprio ambiente de decisão. Sem compreender o funcionamento do amplo ambiente econômico, o administrador não pode esperar obter sucesso para a empresa. Deve perceber as conseqüências de uma política monetária mais restritiva sobre a capacidade da empresa obter recursos e gerar receitas. Precisa conhecer as várias instituições que atuam na economia para poder avaliar os canais potenciais de investimento e financiamento dos seus negócios.

O processo de desenvolvimento econômico do país pode ser avaliado pelo índice agregado, ou seja, o Produto Nacional Bruto (PNB), que provém da produção líquida de todos os ramos de atividades do país, formando um valor global, que pode ser comparado com diferentes níveis de produção, em termos monetários, ao longo dos anos, sendo este indicador uma referência que permite relacionar o ramo de atividade e/ou o da empresa, estabelecendo-se um parâmetro quanto ao comportamento crescente ou decrescente, tempestivamente.

O crescimento do PNB sintetiza a evolução da produtividade de uma economia, cujas flutuações, determinam o progresso obtido ou a regressão sofrida pelo país, sendo tudo isso, resultante da ação empresa nacional.

Os efeitos da inflação, por exemplo, sobre a vida empresarial, além de afetar, em certo grau, as relações entre empregados e empregadores é mais acentuado nos assuntos que envolvem: custos industriais, despesas com serviços e gerais, encargos financeiros, reposição de bens, renovação tecnológica e, planos de expansão a longo-prazo, métodos de gestão, reajustes salariais, etc.. Estes efeitos devem ser imediatamente processados e compreendidos no processo decisório da empresa, exigindo as adequações para a sobrevivência.

Os aspectos microeconômicos:

A micro-economia trata da determinação de estratégias operacionais ótimas para empresas ou indivíduos e as suas teorias fornecem a base para a operação eficiente da empresa. Os conceitos envolvidos nas relações de oferta e demanda, as estratégias de maximização do lucro são extraídos da teoria microeconômica. Questões relativas à composição de fatores produtivos, níveis ótimos de vendas e estratégias de determinação de preço do produto, a mensuração de preferência através do conceito de utilidade, risco e determinação de valor, as razões para depreciar ativos e a análise marginal são todas fundamentadas por teorias no nível microeconômico.

A globalização:

A sabedoria convencional nos ensina que os países não mais dispõem do poder absoluto de controlar o seu próprio destino; os governos estão à mercê dos mercados internacionais. O comércio mundial cresceu num ritmo mais acelerado que a produção, e agora o capital internacional se movimenta a uma velocidade sem precedentes, porém, o comércio internacional não é a fonte dos principais problemas dos países. Efeitos da competição internacional, decorrentes da globalização, está muito ligada à produtividade das empresas, à qualidade dos produtos, aos custos e aos serviços agregados nessas relações comerciais internacionais. O superávit comercial é importante para país, mas nem sempre representa força, pois depende do tipo de produto que é exportado, se de valor agregado ou não, e da importância das importações para o desenvolvimento interno.

Conclusão:

Atualizam-se os cenários econômicos nacionais e internacionais, surgem novas tecnologias, evoluem os sistemas de comunicação, instalam-se comunidades econômicas e blocos econômicos, e as empresas, dentro destes ambientes, ajustando-se para a sobrevivência. No Brasil, principalmente nesta última década, as empresas passaram por fusões, aquisições, incorporações, privatizações, com grande presença de capital estrangeiro, provocando mudanças significativas na gestão empresarial, forçadas pelos fatos econômicos. A globalização e a competitividade passaram a exigir das empresas novas posturas com relação à produtividade e qualidade dos seus produtos e serviços.

É certo, hoje, os administradores brasileiros estão mais atentos às questões macroeconômicas e, centrados na solução dos problemas internos, aqueles tidos como microeconômicos, de olho no que estão fazendo as empresas lá fora, para que, na continuidade, o Brasil possa estar entre os países mais importantes da economia mundial.

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Prof. José Carlos Panegalli, Empresário, Assessor Empresarial, Contador CRC 7473 e Administrador CRA 571

A Crise Atual em uma Perspectiva Histórica: 1929 e 2008


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A Crise Atual em uma Perspectiva Histórica: 1929 e 2008

Frederico Mazzucchelli

A profundidade da crise que assola parte significativa do sistema financeiro mundial terá, certamente, impacto sobre a evolução dos agregados econômicos reais (produção, investimento, emprego etc.). Já se torna evidente que a economia mundial ingressou em uma fase de desaceleração ou recessão, cujo desfecho é ainda desconhecido. É inevitável, neste contexto, que surjam comparações entre o momento atual e a experiência dramática da Grande Depressão, que subverteu o mundo, sobretudo entre 1929 e 1933.

Seguramente, o peso da riqueza financeira em relação ao produto, a sofisticação (e opacidade) das operações financeiras e a interligação entre os vários segmentos dos mercados em escala global, são hoje infinitamente maiores do que no final dos anos 1920s. A dimensão recente alcançada pela riqueza financeira (quase quatro vezes superior ao PIB mundial) e a escala real ou nocional das perdas incorridas sugerem que estamos diante de um processo monumental de desvalorização de ativos, muitas vezes superior ao que se assistiu há quase 80 anos. A conclusão que daí poderia advir é que o curso dos acontecimentos será, em conseqüência, mais dramático e doloroso do que em 1929-1933.

Felizmente, tal conclusão não se sustenta. É necessário assinalar, em primeiro lugar, que face à eclosão da crise, a intervenção dos governos foi imediata. O credo liberal e a panacéia dos mercados “eficientes” ou “auto-regulados” foram sumariamente abandonados e o Estado assumiu, com maior (Inglaterra) ou menor (EUA) grau de acerto, a responsabilidade pela defesa das instituições financeiras, pela provisão da liquidez, pela garantia integral dos depósitos, e pela tentativa de evitar a todo custo o aprofundamento da contração do crédito. Sem a pronta e contínua injeção dos recursos públicos o colapso teria sido total. A ação dos governos, tipicamente keynesiana, tem sido a de buscar a restauração do circuito do crédito-gasto-renda, nem que para tanto seja necessário estatizar (ainda que parcial e temporariamente) parcela significativa do sistema financeiro.

Uma intervenção vigorosa, como a que assistimos no presente momento, seria impensável em 1929. Não se deve esquecer que o conventional wisdom nos anos 1920s era determinado pelas regras do padrão-ouro. Em particular, as ações expansionistas (sobretudo fiscais) eram vistas com suspeição por alimentar a inflação e precipitar, dessa forma, a desvalorização cambial. Câmbio fixo e orçamentos equilibrados conformavam uma unidade indissociável. A defesa do câmbio era o objetivo supremo, que condicionava a política monetária e, na prática, anulava a política fiscal. Os EUA retornaram ao padrão-ouro em 1919, a Alemanha em 1923, a Inglaterra em 1925 e a França, de fato, em 1926. Quando da eclosão da turbulência de 1929, Hoover em nenhum momento cogitou abandonar o padrão-ouro. Brüning (que comandou o gabinete alemão a partir de março de 1930) procurou combater a recessão com a deflação. A França, desde o Franc Poincaré, cultivou sua devoção ao ouro até setembro de 1936 e, da mesma forma, insistiu na tentativa de impor a deflação como remédio para a depressão. Mesmo após a desvalorização da libra em setembro de 1931, a Inglaterra, apesar de praticar uma política de cheap money, permaneceu circunscrita a uma política fiscal conservadora. Nem mesmo Roosevelt conseguiu se desvencilhar do dogma dos orçamentos equilibrados: em 1937, sua tentativa de “sanear” as finanças públicas redundou na “recessão na depressão” de 1938. Unicamente Hitler, desde 1933, praticou uma política deliberada de expansão dos gastos públicos. O outrora austero Hjalmar Schacht, que entre 1923 e 1930 foi o zeloso guardião da moeda alemã, garantiu sua recondução ao posto em 1933 apenas mediante o compromisso explícito, assumido com o Führer, de envolver diretamente o Reischbank no financiamento dos gastos do governo.

A verdade, assim, é que com a exceção do experimento nazista, corações e mentes – à direita e à esquerda – professavam naquele então sua crença mítica nas virtudes das sound finances. Seria impensável, em 1930 ou 1931, que um economista escrevesse, poucos dias após ser laureado com o Prêmio Nobel, que face à extensão da crise “não é hora de pensar no déficit” (Paul Krugman). Ao contrário da experiência traumática da Grande Depressão, a disposição à intervenção estatal é hoje, portanto, um elemento determinante que diferencia nitidamente as iniciativas da política econômica. Este é um fator decisivo que projeta um futuro menos sombrio para a evolução da crise atual.

Existe, de outra parte, uma clara semelhança em relação à origem dos distúrbios que resultaram na Grande Depressão e os que estão por detrás da presente convulsão. Em ambos os casos a débâcle foi precedida pela fragilidade da regulação e pelo relaxamento na percepção dos riscos, o que redundou em uma febre especulativa de conseqüências desastrosas. A inevitável proliferação de operações financeiras de lastro duvidoso, alavancadas pela expansão desmesurada do crédito, é um traço comum dos dois momentos históricos. Em finais dos 1920s e início dos 1930s, era ainda limitado o grau de regulação e controle exercido pela Autoridade Monetária sobre o conjunto do sistema financeiro. No caso dos EUA – o epicentro do terremoto de 1929-1933 – era destacada a proliferação de bancos de pequeno e médio porte, muitos deles fora da área de supervisão do Fed. Ao mesmo tempo, a inexistência de um “muro de contenção” entre os bancos comerciais e os bancos de investimento permitiu que os primeiros se envolvessem em operações de alto risco, comprometendo de modo temerário os recursos dos depositantes.

As respostas iniciais à crise de 1929 (ao contrário das intervenções atuais) foram completamente insuficientes e desastradas: as ações de lender of last resort, do mesmo modo que as iniciativas no plano fiscal, eram incompatíveis com os mandamentos sagrados do padrão-ouro. O resultado foi a propagação das quebras, a contração da produção e a explosão do desemprego. Entre 1930 e 1933 os EUA assistiram a três ondas de liquidação bancária que vitimaram nada menos que 11.000 bancos. Na Alemanha, a quebra do gigante Danat em julho de 1931, face à impotência da intervenção do Reischbank, foi um ponto de inflexão decisivo no aprofundamento do desespero econômico que terminou por conduzir os nazistas ao poder.

Tanto nos EUA como na Alemanha a superação dos desdobramentos mais profundos da crise passou pela imposição de critérios de regulação mais rígidos sobre o sistema financeiro. Se Roosevelt, empossado em março de 1933, alcançou um sucesso inegável em quebrar a espiral contracionista foi porque, desde o início, promoveu o saneamento do setor bancário, e estabeleceu, na seqüência, as bases da regulamentação do sistema financeiro através de um conjunto de dispositivos legais criados entre 1933 e 1935. Hitler e Schacht, de sua parte, converteram o sistema financeiro alemão em um braço operacional do Reischbank. Nos dois casos, a disciplina sobre as finanças privadas foi essencial para que as economias se levantassem dos escombros da depressão.

Da mesma forma, a superação da atual crise deverá contemplar a implantação de um novo marco de regulação para o sistema financeiro. Como se sabe, foi nos anos 1970s e 1980s que o aparato regulatório da Golden Age (a chamada “repressão financeira”) foi desmontado, em nome da imaginada eficiência das “finanças comandadas pelo mercado”. Hoje, face ao descalabro e descontrole das operações financeiras que redundaram na atual crise, não há mais quem negue a necessidade imperiosa de reintroduzir padrões mais rígidos e rigorosos que disciplinem o funcionamento do sistema financeiro em âmbito nacional e internacional. Em particular, a regulamentação sobre o shadow financial system (bancos de investimento, fundos de investimento, hedge funds, seguradoras), e a redefinição de suas relações com os bancos comerciais, é essencial para assegurar uma estabilidade mínima às economias capitalistas. A consciência de que é fundamental retomar a regulação sobre o mundo das finanças privadas é, assim, paralelamente, à pronta decisão de utilizar os recursos públicos para mitigar a propagação da crise, um fator essencial. É claro que a imposição de um novo marco regulatório para as finanças privadas não se dará em um piscar de olhos. Mas a percepção de sua urgência, ao mesmo tempo em que o Estado atua diretamente e sem ressalvas sobre a solvência do sistema financeiro, permite antever – passada a atual tormenta – um funcionamento menos turbulento e tempestuoso para o mundo das finanças.

É necessário, ademais, atentar para um dado importante. No início dos anos 1930s a coordenação internacional tornara-se uma quimera. Era absolutamente impossível compatibilizar as ações do New Deal com as propostas nazistas, e ambas com o grupo do ouro liderado pela França ou com a área da libra comandada Inglaterra. Nos anos 1930s a ordem internacional se estilhaçou e se formaram blocos de nações, com os países se envolvendo em ações essencialmente defensivas, o que redundou na escalada do protecionismo, nas desvalorizações competitivas e na busca de soluções autárquicas. A ausência de coordenação supranacional foi uma característica marcante dos anos 1930s. Ela ensejou a tentativa de saídas particularistas para a crise, acirrou a rivalidades nacionais e deu livre curso às alternativas autoritárias. Felizmente, não é este o quadro que hoje se apresenta. Mesmo diante das naturais dificuldades em se alcançar soluções consensuais, existe um interesse comum entre os EUA, a Europa, o Japão e a China em evitar a propagação da crise. Hoje, a ação coordenada (manifestada, por exemplo, na recente redução conjunta da taxa de juros) tende a ser mais plausível – e factível – que as soluções particulares e isoladas (beggar thy neighbor) típicas dos anos 1930s.

Existe, por fim, uma diferença significativa entre as atuais atribulações econômicas e o contexto da Grande Depressão, que não pode ser desprezada. No início dos anos 1930s, a proporção da população economicamente ativa empregada nas atividades agrícolas e extrativas era próxima a um quarto nos EUA, e a um terço na Alemanha. Com a depressão, dada a maior sensibilidade dos preços agrícolas às variações da demanda, a renda real da população empregada no campo despencou. No caso dos EUA, a contração da renda real dos agricultores, entre 1929 e 1932, foi superior a 50%, o que arrastou uma infinidade de bancos do Sul e do Meio Oeste à falência. Somente através de uma ação tempestiva de defesa e sustentação dos preços agrícolas é que a profundidade e a duração da depressão poderiam ser mitigadas. De fato, parcela relevante dos recursos públicos administrados pelo New Deal e pelos nazistas foi direcionada exatamente para a reversão do quadro devastador que se abateu sobre a agricultura. Hoje, esta questão sequer é colocada: nem a proporção da população empregada no campo é relevante, e nem a participação da agricultura na criação da renda tem uma expressão econômica digna de maiores preocupações. É provável, entretanto, que o mercado imobiliário de hoje seja a agricultura de ontem: a dimensão da crise do subprime todavia não é mensurável. É o próprio secretário do Tesouro norte-americano quem afirma: “o problema real é que os bancos de todo o mundo fizeram empréstimos arriscados. (…) A coisa mais espantosa é a dimensão do problema”. A cadeia de empréstimos “sujos” associados à especulação com imóveis ainda não foi desmontada, e é possível que o socorro da intervenção pública se torne aí tão intenso e prolongado quanto o foi para retirar a agricultura da vala da depressão nos anos 1930s.

As considerações anteriores indicam que não é previsível para a crise atual um desdobramento semelhante ao da Grande Depressão. Nada autoriza, contudo, uma perspectiva candidamente otimista. A extensão dos estragos é ainda desconhecida e o impacto sobre o setor produtivo seguramente será profundo. Apenas a decidida intervenção do Estado tem evitado um descalabro de maiores proporções. A necessidade de retomar a regulamentação sobre o sistema financeiro é reconhecida, mas sua implementação certamente será precedida por desacordos substanciais e demandará tempo para ser efetivada. Da mesma forma, apesar de o ambiente internacional favorecer a busca de soluções cooperadas, não se deve imaginar que elas sejam simples e isentas de contradições, em particular no que diz respeito ao papel dos EUA e do dólar no contexto mundial.

A crise atual representa, na verdade, uma derrota fragorosa do liberalismo irrefletido que contaminou os espíritos nos últimos 30 anos. A fé cega na capacidade de regulação dos mercados é um dogma que acompanha o capitalismo desde o seu nascimento. Desde a Fábula das Abelhas de Mandeville (“vícios privados, virtudes públicas”), até os modelos de expectativas racionais de última geração, o suposto é sempre o mesmo: os mercados possuem uma racionalidade imanente que garante o funcionamento ótimo da economia. O ambiente dos anos 1920s, sobretudo nos EUA, estava carregado desta convicção. Esta mesma convicção inundou a política, a academia e o mundo dos negócios a partir da guinada conservadora de Tatcher e Reagan. Os roaring twenties nos EUA culminaram com a Grande Depressão, e a euforia das finanças desregulamentadas culminou no desastre atual. A grande lição que resta destes dois episódios dramáticos é que, definitivamente, o capitalismo não pode ser deixado à mercê dos capitalistas…

A crise de 1929 e o Brasil


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A crise de 1929 e o Brasil

3 de janeiro de  2009

Do café à industrialização

Como a crise de 1929 afetou o Brasil e favoreceu a adoção de um modelo econômico centrado na substituição de importações e na intervenção estatal

José Fucs – Revista Época, janeiro de 2009

Fazia quase dois anos que ocorrera o crash na Bolsa de Valores de Nova York, em outubro de 1929. Mas os estragos provocados pela crise ainda eram sentidos em todo o planeta – e também no Brasil. Em junho de 1931, uma nuvem de fumaça gigantesca, que vinha de uma enorme fogueira, pairava sobre a cidade de Santos, no Litoral de São Paulo, por onde escoava boa parte das exportações do café brasileiro. Acesa durante as festas juninas, a fogueira duraria até o fim do ano – mas tinha pouco a ver com a comemoração de São João. Ela fora iniciada para queimar os estoques de café, então responsável por 70% das exportações brasileiras, que se acumularam com a retração do mercado externo. Enquanto o fogo durou, consumiu milhões de sacas. O aroma do café torrado era tão forte que ultrapassava as fronteiras municipais. Era contido apenas pelas encostas da Serra do Mar, que se estende pela costa paulista. O café era queimado a mando do governo de Getúlio Vargas para tentar reduzir o impacto negativo da crise no Brasil, então responsável por 60% das vendas mundiais do produto. Vargas assumira o poder um ano antes, por meio de um movimento militar que se tornou conhecido como Revolução de 1930. A economia balançava. As exportações, que atingiram US$ 445 milhões em 1929, caíram para US$ 180 milhões em 1930. Segundo a Bolsa de Café de Santos, a cotação da saca no mercado internacional – 200 mil-réis em agosto de 1929 – caíra quase 90%, para 21 mil-réis, em janeiro de 1930. Nas fazendas cafeicultoras, concentradas no interior paulista e no Paraná, muitos resolveram seguir o mesmo caminho e queimaram o café colhido.

Todos os elos envolvidos na cadeia de produção do café brasileiro – fazendeiros,comerciantes, banqueiros e trabalhadores rurais (a maior parte imigrantes) – foram atingidos pela crise. Muitos produtores foram à bancarrota. O desemprego no campo se multiplicou, estimulando um movimento migratório para as cidades, em especial para São Paulo. Como se veria depois, o que acontecia naquele momento era apenas o início de um profundo processo de mudanças que se prolongaria até o fim dos anos 30, às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Essas transformações marcariam para sempre a economia nacional e internacional. Dos escombros da economia do café, surgiria um novo modelo econômico, que se manteria praticamente o mesmo até quase os dias de hoje. Em 2009, o crash de 29 completará 80 anos coincidentemente, no momento em que parece haver uma crise global de proporções comparáveis, com desaceleração na atividade econômica e alta no desemprego. Embora os contextos das duas crises sejam bem diferentes, a história da crise de 29, em particular seus desdobramentos no Brasil, pode trazer lições preciosas sobre as medidas que ainda fazem sentido – e as que não fazem – para reduzir o impacto do encolhimento global no país.

Naquela época, o Brasil passou por um grave problema cambial. De acordo com o historiador Caio Prado Júnior (1907-1990), autor de História econômica do Brasil, publicado pela primeira vez em 1945, a queda nas exportações, provocada pela crise, gerou um desequilíbrio na balança comercial brasileira. Sem uma indústria sólida, o Brasil exportava apenas café e outros produtos agrícolas, como algodão, cacau e borracha. Como não eram produtos essenciais para o consumidor – portanto, suas compras poderiam ser interrompidas a qualquer hora -, dizia-se que o país tinha uma “economia de sobremesa”. A moeda forte obtida com essas exportações servia para pagar as importações de boa parte dos produtos industrializados consumidos pelos brasileiros. O aprofundamento da crise, porém, provocou a redução da demanda externa e a queda dos preços internacionais do café. Com isso, o déficit comercial do país cresceu rapidamente.

A crise também causou a interrupção do fluxo regular de capital estrangeiro para o Brasil. O dinheiro externo alimentava a economia brasileira desde os tempos do Império, e seu ingresso se intensificara entre a Proclamação da República, em 1889, e a posse de Vargas, em 1930 – período da história conhecido como República Velha. A falta do dinheiro externo agravou ainda mais o déficit cambial brasileiro. A moeda nacional se desvalorizava rapidamente. O valor da libra esterlina, então a moeda mais usada no mundo, passou de 40 mil-réis, em 1929, para quase 60 mil-réis, em 1934. Com as exportações em queda e sem financiamento externo, o governo aumentou de forma brutal a emissão de moeda – e isso provocou alta da inflação.

Para preservar as poucas reservas em moeda forte que o Brasil tinha em caixa, o governo Vargas impôs um rígido controle sobre o câmbio e passou a administrar com rigor as remessas de lucro por empresas estrangeiras. Faltava moeda forte para pagar as importações, essenciais ao atendimento da demanda interna e ao desenvolvimento do país. Houve uma acentuada queda na compra de produtos do exterior, também desestimulada pela desvalorização da moeda brasileira. As importações, que registraram uma média de 5,4 milhões de toneladas de 1926 a 1930, caíram para 3,8 milhões entre 1931 e 1935, segundo Prado Júnior. Na tentativa desesperada de compensar os cafeicultores, o governo Vargas aumentou as compras dos excedentes de café durante praticamente toda a década de 30, segundo afirma o brasilianista Thomas Skidmore, no clássico Brasil: de Getúlio a Castelo, lançado em 1975. Para Skidmore, mesmo com os esforços do governo e a adoção de uma política de “socialização dos prejuízos” dos cafeicultores, era impossível deter o declínio das receitas cambiais brasileiras. (Só recentemente, pela primeira vez na História, o país conseguiu superar o problema crônico de falta de divisas, com a explosão das exportações brasileiras e o acúmulo de US$ 200 bilhões em reservas cambiais.) Nem a queima dos excedentes de café foi suficiente para amenizar o problema. Skidmore afirma que, apesar da queda nas importações, o déficit nas contas externas se aprofundou ainda mais e obrigou o Brasil a suspender os pagamentos da dívida externa em 1938 e 1939. Tal medida voltaria a ser adotada em 1987, meio século depois, nos tempos do Plano Cruzado, implementado no governo do presidente José Sarney. Apesar do impacto que a crise de 29 teve na economia brasileira, muitos acadêmicos acreditam que não foi ela o fator fundamental para deflagrar o movimento armado que depôs o presidente Washington Luiz, em 1930. O historiador Boris Fausto, autor de Revolução de30-a historiografia e a história, afirma que a crise teve “pouco efeito” nos primeiros meses daquele ano no Brasil. Segundo ele, os principais fatores que conduziram à Revolução de 30 tinham relação com a política interna. Principalmente com a ruptura do acordo do “café com leite”, uma espécie de pacto informal entre os Estados de São Paulo e Minas Gerais para se revezar na Presidência. Na visão de Fausto, a crise foi provocada pela insistência de Washington Luiz em lançar um candidato paulista para sua.sucessão nas eleições de março de 1930.

Fausto diz que a derrota de Vargas, o candidato oposicionista apoiado por Minas Gerais, gerou descontentamento em setores da sociedade. Logo em seguida, com o assassinato de João Pessoa, o oposicionista que governava a Paraíba, o clima desfavorável se acentuou. Acusava-se o governo federal de ter patrocinado o crime por motivação política. Hoje, sabe-se que o assassinato de Pessoa foi um crime passional, que nada tinha a ver com política. Mas o episódio serviu como combustível para os “revolucionários” conduzirem Vargas ao poder. “O grande impacto da crise no país viria depois da Revolução de 30″, afirma Fausto.

A economia cafeeira já perdia forças desde antes da crise. Com a ampliação da área de plantio e a superprodução constante, os preços do café estavam em queda há anos. O governo tentava manter a roda girando com a compra dos excedentes – uma estratégia criticada asperamente pelos seguidores da política liberal do “laissez-faire” na economia. Para eles, a tentativa de manipular o preço do café teria efeito efêmero e seria contraproducente no longo prazo. O governo, no entanto, não dava ouvidos à oposição. “Era uma situação paradoxal: o Brasil exportava produtos primários e importava produtos manufaturados, como sugeriam os princípios do liberalismo econômico”, diz o brasilianista Skidmqre. “Mas tentava, também, aumentar ao máximo sua vantagem relativa por meio de controles de mercado e da intervenção estatal num setor vital da economia.”

Como se tudo isso não fosse suficiente, crescia a concorrência internacional – em particular da Colômbia – ao café brasileiro. Os principais países consumidores, como Estados Unidos, Franca, Itália, Holanda e Alemanha, que compravam 80% da produção brasileira, passaram a diversificar seus fornecedores. Havia a percepção de que, no Brasil, misturavam-se ao café todos os tipos de impurezas, como pedras, terra e gravetos, para aumentar o peso das sacas. Também se acusavam os produtores nacionais de incluir café de baixa qualidade nas sacas para aumentar o lucro. Quando a crise internacional chegou ao Brasil, ela representou apenas o golpe final para que o sistema econômico da República Velha, centrado na monocultura do café, entrasse em colapso.

A estratégia do governo Vargas para enfrentar a crise baseou-se principalmente na substituição das importações, por meio do desenvolvimento da indústria local, e na intervenção do Estado na economia. De acordo com o economista Celso Furtado (1920-2004), ex-ministro do Planejamento no governo João Goulart (1962-1964), a economia cafeeira, embora em decadência, gerou os recursos necessários para impulsionar a industrialização e favoreceu o desenvolvimento de um mercado interno, formado pela mão de obra assalariada dos imigrantes e pelos produtores rurais e suas famílias.

Inicialmente, a demanda era atendida pelas importações. Depois, passou a ser suprida pela produção local. Sem acesso aos importados, os consumidores representavam um mercado cativo para as empresas nacionais. Assim, apesar da crise externa, a produção industrial brasileira pôde crescer rapidamente. Acentuou-se o processo de nacionalização da economia. A desvalorização da moeda, em decorrência da crise, encarecia as mercadorias estrangeiras e representava um estímulo para a incipiente industria local. Muitos cafeicultores que conseguiram sobreviver à crise começaram a investir no setor industrial. A política econômica de Vargas foi reforçada por dois fatores externos. O primeiro foi o “New Deal”, um pacote de medidas para reativar a economia americana lançado em 1933 pelo presidente Franklin Delano Roosevelt O segundo foram as teorias do economista britânico John Maynard Keynes (1883-1946), delineadas em seu livro Teoria geral do emprego, do juro e da moeda-, publicado em 1936. Tanto Roosevelt quanto Keynes defendiam a atuação do Estado para estimular a atividade econômica. Keynes, de certa fornia, deu legitimidade conceituai à política implementada por Vargas. No Brasil, um dos principais entusiastas das idéias de Roosevelt e Keynes foi o engenheiro e empresário Roberto Simonsen (1889-1948), senador e presidente da Fiesp, entidade que reúne os industriais paulistas.

Simonsen defendia o fortalecimento do Estado para permitir a industrialização brasileira. Apesar de ter se oposto a Vargas no início do governo, acabou se aliando a ele. Amparado nas idéias de Keynes e Roosevelt, temperadas por seu nacionalismo peculiar, Vargas promoveu a criação em série de empresas estatais. Entre elas, fundou a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), privatizada em 1993, e a Companhia Vale do Rio Doce, privatizada em 1997. Em seu segundo mandato, Vargas voltou a investir na criação de estatais. Em 1953, foi a vez de fundar o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), depois rebatizado de BNDES, com “S”, para incorporar a palavra “social” no nome. No mesmo ano, foi criada a Petrobras, depois da campanha popularizada pelo slogan O petróleo é nosso. A política econômica de Vargas criou raízes profundas no Brasil. Manteve-se viva mesmo durante o governo militar, que assumiu o poder após o golpe de 1964. Ao contrário dos militares chilenos, que derrubaram o governo socialista do presidente Salvador Allende em 1973, o regime militar que se instaurou no Brasil não apostou no liberalismo econômico para estimular o desenvolvimento. Ao contrário, acabou por reforçar a tendência estatizante e nacionalista que vigorava no país antes de os militares assumirem o poder. Durante o regime militar, foram criadas diversas outras estatais, entre elas a Telebrás (1972), privatizada em 1998, e a Nuclebrás (1975), que continua sob o controle do Estado.

Hoje, como beneficio da perspectiva histórica, pode-se dizer que o protecionismo e o estatismo adotados por Vargas para combater os efeitos da crise de 29 favoreceram o desenvolvimento de um parque industrial pujante no Brasil. Mas também geraram tremendas distorções, como a ineficiência das empresas, o encarecimento dos produtos por falta de concorrência internacional e o desestímulo à inovação. A estatização e o protecionismo tendem a estimular também o descontrole das contas públicas, a corrupção, o empreguismo e o tráfico de influência.

A criação de um clima hostil ao capital estrangeiro também não ajuda o país a se desenvolver. Atualmente, até a China, que se isolou do resto do mundo durante 30 anos, sob o comando de Mao Tsé-tung, tem uma economia aberta. Desde 1978, quando as reformas econômicas abriram o país, a China cresce a taxas de 10% ao ano. O Chile também se tornou um exemplo admirado globalmente e deve se tornar o primeiro país latino-americano a ingressar no Primeiro Mundo, graças, sobretudo, à persistência de políticas econômicas liberais ao longo de 35 anos. A economia brasileira tem um tamanho intermediário entre a chilena e a chinesa e, com certeza, tem lições a extrair de ambas. O modelo econômico adotado por Vargas para combater os efeitos da crise de 1929 pode até ter trazido bons resultados em sua época. Mas, hoje, no mundo globalizado em que vivemos, suas idéias – baseadas no intervencionismo e no nacionalismo paternalista – parecem pertencer ao tempo das diligências.